domingo, 21 de março de 2010

Nobres e sinceras visitas



Tempo de mudança e reencontro. E nesses momentos, de ciclos que oscilam entre altos e baixos, eles vieram para visitar Sophia. A sua intuição é intrínseca, por vezes foi deixada de lado, mas guia todos seus passos quando humildemente é ouvida.

Noite. Sophia ainda não se acostumou a ouvir somente a sua própria voz. Ouvir e sentir seu silêncio. Tomar café, sair, pensar e debater com ela mesma. Nesse dia, precisamente às 23 horas uma grande libélula entra e fica na sua casa.

Quieta. Imóvel. Por instantes.

De súbito, ela voa. Visita toda a casa. Bate no teto, pousa na estante e seus olhos acompanham e a sua mente pergunta: o que fazer? Servir um café?

Carinhosamente ela pega a libélula e conduz para a única janela que não possui telas de proteção. Telas que podem ser interpretadas como muros, para indesejáveis sentimentos, pensamentos, situações.

Dia seguinte. Noite, novamente. Exatamente às 23 horas um beija-flor filhote entra na casa. Todo preto, com o peito verde. Um verde indescritível, quase cintilante.

Visivelmente doente, ele lutou e se debateu no varal e na lâmpada,por fim, no chão. Era impossível um contato físico entre Sophia e esse mensageiro. A intuição veio à tona e ela respeitou a angústia do bichinho em encontrar um lugar em que realmente pudesse descansar.

Naquela noite. Só essa noite.Descansa beija-flor, aqui você está seguro.

E como toda visita deve ser bem tratada, Sophia coloca em um cálice de cristal, muito especial [ele foi oferecido como presente e símbolo de perpetuidade de gerações por um senhor amigo] um pouco de açúcar e água fresca.

O beija-flor não quis se alimentar sozinho. Quando, vencido pelo cansaço finalmente pousou perto do cálice, Sophia pediu permissão e pegou o bichinho pelas mãos e foi dando pequenos goles de água. A conexão foi feita. A comunicação também. Ela abre as mãos e o visitante parte satisfeito para um próximo voo.

Fortalecido. Feliz. Livre.

É preciso ouvir com a voz do coração. É preciso entender o que não é dito.É preciso do silêncio para poder falar com precisão e mudar radicalmente a percepção da realidade.

N.B.: No Xamanismo, a Libélula representa a necessidade de reavaliar padrões de comportamento que devem ser quebrados. A energia da Libélula relaciona-se com os sonhos e as ilusões que aceitamos como sendo realidade concreta e expressa a essência dos tempos de mudança, das mensagens de iluminação e sabedoria, e a comunicação com o mundo dos elementais.

Sophia recebeu a mensagem que deve usar a energia desse visitante para escapar dos caminhos enganosos e enveredar pela senda da transformação.

Por sua vez, o seu segundo visitante inesperado – o beija-flor – representa a volta da felicidade perdida. Sua mensagem é a de que, sem um coração aberto e amoroso, ela jamais poderá degustar o néctar da vida.

Assim como seu amiguinho, Sophia tem sede e vem sido sendo alimentada aos poucos para traçar voos, porém de forma precisa. O beija-flor é o único pássaro que pode voar em todas as direções — para cima, para baixo, para os lados e para trás —, conseguindo ainda manter-se imóvel num único ponto, como se estivesse paralisado em pleno voo.

Voa mulher, voa.
Sophia e seu visitante amam a vida e suas alegrias e possuem a rara capacidade de reunir as pessoas em relacionamentos que extraem de cada um o melhor que eles têm a oferecer, repudiando a feiúra, a discórdia e a desarmonia, e voando rapidamente para longe de tudo isto.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Entre o público e a privada

Puxa a descarga.Deixa ir embora de vez o que de ruim estava dentro de você.Seu corpo – magnífica e inexplicável máquina – aproveita o que tem de bom, recicla e transforma.


Parafraseando Nelson Rodrigues: “Convém não facilitar com os bons, convém não provocar os puros. Há no ser humano, e ainda nos melhores, uma série de ferocidades adormecidas. O importante é não acordá-las.”


Talvez não esteja sendo clara ao escrever estas poucas palavras, mas ainda existe gente que se assusta com atitudes sem escrúpulos, indignas. Ops...sou uma delas.

Mas tudo isso sempre existiu, sempre existirá.

Faz parte de um todo que se chama gente.Cabe a cada “gente” ser gente de verdade.A diferença entre o ontem e o hoje é que tudo está exposto e, se para alguns assim o está, é porque os limites acabaram e tudo, praticamente, passa a ser aceitável.

Afinal a individualidade nunca esteve tão em alta.

Sophia pede desculpas por escrever de forma tão amarga e tão oculta.

É que Sophia precisava desentupir e puxar a descarga, entende?

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Send Amor



Saudades de receber carta escrita, fita gravada com direito a chamada da rádio. Saudosismo analógico de receber bilhetes anônimos na sala de aula, presentes de um e noventa e nove e telefonemas que terminam com o silêncio cheio após o “Alô”.

Por isso e por tantas outras coisas que Sophia se surpreendeu em receber na mesa de um bar – não poderia ser diferente – um manuscrito em letra de forma, no verso de um papel já aproveitado, uma carta de amor.

Indireta. Confusa. Sincera. Humana. Escrita.

Cheia de um tudo que faz parte do todo de nós.

“Porque por mais que seja internamente repetitivo, e pode-se explicar, talvez, pelo fato de não ter sido internamente discutido a importância de se expressar sobre isso.

Porque ela me faz bem e é isso que importa: a leveza da relação, o bem-estar pessoal, a sensação de calmaria que se tem quando se para e pensa que existe alguém por quem nutrimos sentimentos não forçados.

Porque nessa porra dessa gangorra que é a vida, onde, assim como os carros, as pessoas chegam e vão embora, cada um carrega nas costas o peso da missão atribuída; vemos os transeuntes perdidos com olhares vazios ocos, sem brilho. Dependendo da criatura é importante uma segurança e paz afetiva.

Porque me recuso a acreditar em perfeição. E, diante dessa prerrogativa e levando-se em conta o oposto do que consideramos perfeito, só o fato de não trazer consigo pequenos delitos impróprios para a paz interior já é uma porra de medalha que temos que carregar de forma orgulhosa no peito.

Porque o entendimento de um simples olhar, as coisas claras na troca de exclamações e somando tudo isso a uma série de outros fatores, deixa mais cristalino bem-estar do responsável e supervisão full time pela ausência de lágrimas e similares que é a porra do coração, este órgão primitivo; refém das armadilhas da mente.”