segunda-feira, 19 de abril de 2010

Inacabada


Ela não quer namorar. Ela quer ter tempo para se reorganizar.

Ela quer.

Ela ainda não quer se apaixonar. Ela quer se divertir e viver o “só por hoje”. Melhor ainda, ser plena. Na plenitude do seu quarto, dos seus livros, da profusão de ideias e sentimentos que explodem da sua cabeça. Solitude ao invés de solidão.

Ela quer.

Ela não quer esse ou aquele. Ela quer o desafio conhecido. Terreno seguro. Estória recontada.Mulher caçadora.

Ela quer.

Para o desconhecido... Areia movediça. Beijos recebidos, corpos que se encontram somente por instantes. Encontros marcados, flores e diversão. Torpedos impertinentes, pertinentes, pontuais. Convites, diversidades e medo de conhecer mais gente, de ouvir mais gente, de dar oportunidade ao novo.

Ela deseja.

Mas ainda não quer abrir essas janelas.

Somos confusas, eu sei.

“Algumas vezes eu fiz muito mal para pessoas que me amaram. Não é paranóia não. É verdade. Sou tão talvez neuroticamente individualista que, quando acontece de alguém parecer aos meus olhos uma ameaça a essa individualidade, fico imediatamente cheio de espinhos - e corto relacionamentos com a maior frieza, às vezes firo, sou agressivo e tal. É preciso acabar com esse medo de ser tocado lá no fundo. Ou é preciso que alguém me toque profundamente para acabar com isso.” Caio Fernando Abreu.

domingo, 21 de março de 2010

Nobres e sinceras visitas



Tempo de mudança e reencontro. E nesses momentos, de ciclos que oscilam entre altos e baixos, eles vieram para visitar Sophia. A sua intuição é intrínseca, por vezes foi deixada de lado, mas guia todos seus passos quando humildemente é ouvida.

Noite. Sophia ainda não se acostumou a ouvir somente a sua própria voz. Ouvir e sentir seu silêncio. Tomar café, sair, pensar e debater com ela mesma. Nesse dia, precisamente às 23 horas uma grande libélula entra e fica na sua casa.

Quieta. Imóvel. Por instantes.

De súbito, ela voa. Visita toda a casa. Bate no teto, pousa na estante e seus olhos acompanham e a sua mente pergunta: o que fazer? Servir um café?

Carinhosamente ela pega a libélula e conduz para a única janela que não possui telas de proteção. Telas que podem ser interpretadas como muros, para indesejáveis sentimentos, pensamentos, situações.

Dia seguinte. Noite, novamente. Exatamente às 23 horas um beija-flor filhote entra na casa. Todo preto, com o peito verde. Um verde indescritível, quase cintilante.

Visivelmente doente, ele lutou e se debateu no varal e na lâmpada,por fim, no chão. Era impossível um contato físico entre Sophia e esse mensageiro. A intuição veio à tona e ela respeitou a angústia do bichinho em encontrar um lugar em que realmente pudesse descansar.

Naquela noite. Só essa noite.Descansa beija-flor, aqui você está seguro.

E como toda visita deve ser bem tratada, Sophia coloca em um cálice de cristal, muito especial [ele foi oferecido como presente e símbolo de perpetuidade de gerações por um senhor amigo] um pouco de açúcar e água fresca.

O beija-flor não quis se alimentar sozinho. Quando, vencido pelo cansaço finalmente pousou perto do cálice, Sophia pediu permissão e pegou o bichinho pelas mãos e foi dando pequenos goles de água. A conexão foi feita. A comunicação também. Ela abre as mãos e o visitante parte satisfeito para um próximo voo.

Fortalecido. Feliz. Livre.

É preciso ouvir com a voz do coração. É preciso entender o que não é dito.É preciso do silêncio para poder falar com precisão e mudar radicalmente a percepção da realidade.

N.B.: No Xamanismo, a Libélula representa a necessidade de reavaliar padrões de comportamento que devem ser quebrados. A energia da Libélula relaciona-se com os sonhos e as ilusões que aceitamos como sendo realidade concreta e expressa a essência dos tempos de mudança, das mensagens de iluminação e sabedoria, e a comunicação com o mundo dos elementais.

Sophia recebeu a mensagem que deve usar a energia desse visitante para escapar dos caminhos enganosos e enveredar pela senda da transformação.

Por sua vez, o seu segundo visitante inesperado – o beija-flor – representa a volta da felicidade perdida. Sua mensagem é a de que, sem um coração aberto e amoroso, ela jamais poderá degustar o néctar da vida.

Assim como seu amiguinho, Sophia tem sede e vem sido sendo alimentada aos poucos para traçar voos, porém de forma precisa. O beija-flor é o único pássaro que pode voar em todas as direções — para cima, para baixo, para os lados e para trás —, conseguindo ainda manter-se imóvel num único ponto, como se estivesse paralisado em pleno voo.

Voa mulher, voa.
Sophia e seu visitante amam a vida e suas alegrias e possuem a rara capacidade de reunir as pessoas em relacionamentos que extraem de cada um o melhor que eles têm a oferecer, repudiando a feiúra, a discórdia e a desarmonia, e voando rapidamente para longe de tudo isto.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Entre o público e a privada

Puxa a descarga.Deixa ir embora de vez o que de ruim estava dentro de você.Seu corpo – magnífica e inexplicável máquina – aproveita o que tem de bom, recicla e transforma.


Parafraseando Nelson Rodrigues: “Convém não facilitar com os bons, convém não provocar os puros. Há no ser humano, e ainda nos melhores, uma série de ferocidades adormecidas. O importante é não acordá-las.”


Talvez não esteja sendo clara ao escrever estas poucas palavras, mas ainda existe gente que se assusta com atitudes sem escrúpulos, indignas. Ops...sou uma delas.

Mas tudo isso sempre existiu, sempre existirá.

Faz parte de um todo que se chama gente.Cabe a cada “gente” ser gente de verdade.A diferença entre o ontem e o hoje é que tudo está exposto e, se para alguns assim o está, é porque os limites acabaram e tudo, praticamente, passa a ser aceitável.

Afinal a individualidade nunca esteve tão em alta.

Sophia pede desculpas por escrever de forma tão amarga e tão oculta.

É que Sophia precisava desentupir e puxar a descarga, entende?