quarta-feira, 23 de março de 2011

Pensem nas crianças



A gente esperava voltar com um assunto mais light. Bastavam as nossas notícias bombásticas.

Mas duas crianças a mais a caminho, na forma de neta e filho, abalam qualquer estrutura emocional, que treme ainda mais forte diante do que o mundo assiste estarrecido pelas telas das TVs, dos PCs, dos iPhones, dos smarts...

Aquelas crianças mudas, telepáticas, esqueceram?

Como pode um país que viveu na pele a tragédia nuclear, repetir o drama, agora não por um ataque do inimigo, mas pelo movimento natural de um planeta que já não consegue mais suprir a demanda humana?

A energia atômica é responsável pelo abastecimento de 25% do que o Japão consome. Um quarto do que gasta a terceira maior economia do mundo em PIB nominal, e a terceira maior em poder de compra – o quarto maior exportador do mundo – vem da mesma fonte que dizimou 140 mil pessoas em Hiroshima e 80 mil em Nagasaki, sem contar as mortes posteriores em consequência da radiação.

Minha razão não consegue encontrar explicações para o meu filho quando ele pergunta por que o Japão tem tantas usinas nucleares além de Fukushima. ‘Bem, o Japão não tem petróleo...’ ‘Mas o Brasil tem, mãe. Pra que usina nuclear em Angra?’ ‘Sei não, filho’

Bom, pelo menos a gente não tem terremoto, tsunami. Quer dizer.

Em sua crônica no jornal O Globo, ‘Celacanto provoca maremoto', Arnaldo Jabor fala que a impressão que se tem é que "o sentido do acontecimento é o acontecimento não ter qualquer sentido". E cita Hannah Arendt e Gunter Anders, apud Jean Pierre Dupuy:

"O escândalo hoje em dia é que um mal imenso possa ser causado com uma completa ausência de malignidade, que uma responsabilidade monstruosa possa andar a par com uma total ausência de más intenções. O caráter inverosímil da situação é de cortar o fôlego. No mesmo instante em que o mundo se torna apocalíptico, e isto por culpa nossa, oferece a imagem de um lugar habitado por assassinos sem maldade e por vítimas sem ódio. Em nenhuma parte há traços de maldade, não há senão escombros. A ausência de ódio e ausência de escrúpulos serão uma coisa só. (...) Na atividade do mundo chamada "tecnologia" é que a história está acontecendo; a tecnologia virou o "sujeito" da história, na qual somos apenas "co-históricos."

Viramos o ano 2000, e o mundo não acabou. Viraremos 2012, 2013, e não, não acho que o mundo vá acabar. Mas, nesse ponto (porque às vezes ele é chaaaato), concordo com o Jabor: precisamos de uma ética política global. Mas qual? Quem vai dar as ordens? Quem vai botar as cartas na mesa?



O Rei de Todos os Monstros

...

No blog da Maria Frô:

Angra dos Reis: solidariedade às vítimas do Japão e repúdio à insegurança nuclear

Em Angra, ambientalistas, professores, estudantes e a população fazem ato em solidariedade às vítimas do Japão e em repúdio às falsas verdades do programa nuclear.

... lembraram que o continente e nem a Ilha Grande recebem a atenção devida dos governos lembrando que a estrada Rio-Santos é precária e desmorona durante todas as chuvas. Não existem abrigos seguros na cidade, o transporte público é ineficiente; a cidade não dispõe de um bom hospital e a falta de informação reina na cidade sobre como funciona uma usina nuclear e os riscos que ela trazem para a população.


Angra fica ali do lado de Ilha Grande, a vítima das enchentes do ano passado, antes da Serra... Lembram?

...

Há cerca de dez dias venho fazendo um trabalho de pesquisa de 1981 a 2011. Mais 10 anos e eu fazia o filme da minha vida :)

Mas é impressionante, este ano ainda não tem uma imagem positiva para marcar 2011.

Bom... ainda.

Ainda tem ano à beça. E a gente vai ter algumas pra compartilhar. Logo, logo.



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Em (avançado) tempo:
Era pra este ser um post de despedida. A crise dos 40 já bateu na porta, eu não atendi, mas ela promete soprar, soprar...

Daqui a 2 meses e alguns dias, essa que vos fala não será mais balzaquiana. Mas antes da idade da loba tem história.

E, aliás, quem tem medo do lobo mau?

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Pu-ta-quiu-pa-riu. Era o melhor goleiro do Brasil



Em fevereiro – graças a Deus – tem carnaval, sou Flamengo e de quatro em quatro anos no meio do ano o mundo pára para olhar uma bola.



A jabulani ainda está em campo, o Brasil não está mais lá, mas o mundo está olhando pra nós. 2014 é com a gente mesmo. A pátria de chuteiras, pentacampeã, a seleção canarinho (maldita camisa azul), celeiro dos melhores do mundo.



Os melhores do mundo...

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Meu filho veste o uniforme, calça a chuteira, me dá um beijo e um abraço e vai pro futebol. Dez anos, já tá indo sozinho! No quarto, o pôster do Flamengo já não está lá. Era o pôster do Brasileirão, hexacampeonato do Mengão.

Ele nunca mais vai gritar Puta-quiu-pariu. É o melhor goleiro do Brasil!!!

A maior torcida do Brasil está estarrecida. O Brasil está estarrecido.
Ou deveria estar. E a gente não deveria ver coisas (não consigo adjetivar) como isso http://twitter.com/alee_alcantara/statuses/17909647237

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Matéria do Estadão, de 4 de julho: Dez mulheres são mortas por dia no País E muitas delas poderiam ser evitadas. Como a de Eliza.

Os números mostram que as taxas de assassinatos femininos no Brasil são mais altas do que as da maioria dos países europeus, cujos índices não ultrapassam 0,5 caso por 100 mil habitantes, mas ficam abaixo de nações que lideram a lista, como África do Sul (25 por 100 mil habitantes) e Colômbia (7,8 por 100 mil).

“Quanto mais machista a cultura local, maior tende a ser a violência contra a mulher”, afirmou a psicóloga Paula Licursi Prates, doutoranda na Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo, que realiza estudos sobre homens autores de violência.




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A advogada de Eliza Silva Samudio, Anne Faraco, é especialista em vara de família. E em casos envolvendo jogadores de futebol.

É. Isso mesmo. Advogada especializada em amantes de jogadores de futebol. Existe isso. Porque existem muitos deles que compram carrões, compram mansões, compram mulheres.



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Quantos meninos não sonham em ser um jogador de futebol? O melhor do Brasil? O melhor do mundo?

Muitos não têm outra oportunidade na vida se não a sorte de ser visto por um olheiro. E se tiver talento e sorte de chegar a um grande time, aí sim, as coisas começam a mudar. Patrocínios, passes, milhões.



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O caso Bruno é obviamente um caso extremo. Psicopatia... enfim, muita notícia vai rolar. O lado podre da mídia vai explorar cada detalhe sórdido do assassinato. E a gente que mal se recuperou do caso Nardoni, vai ter muito jornal a virar, e canal a mudar diante dos filhos que não conseguem entender.

Eu não consigo explicar.

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Esse post tá um bocado desconexo. Eu tinha que botar isso pra fora de alguma maneira.

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Quando o Brasil perdia da Holanda, meu filho passou os 3 minutos de acréscimo chorando agarrado na minha cintura. ‘Não deu, mãe’. Choramos juntos com o goleiro Júlio César, quando ele pediu desculpas aos brasileiros. E lembrei a ele que daqui a quatro anos a bola tá com a gente.



(continua)

Ligue 180 – Central de Atendimento à Mulher

quarta-feira, 23 de junho de 2010

O que importa é a gema

Existe um abismo entre o que os outros vêem sobre você, o que você vê e como gostaria de ser vista.

Mesmo envelhecendo, a largos passos, a genética veio a meu favor. Me sinto múltipla.

Diversos personagens que completam a identidade que me concederam: Sophis, Sophia. Tão ermitã e prática como as mulheres com ascendente em capricórnio, a origem do meu nome vem do latim e é conhecida como “a sábia”.

Nesse autobatismo, décadas de vida e quatro anos de blog, permitiram ouvir e compartilhar experiências com desconhecidos, conhecidos, amigos e aqueles que se dizem.

A teoria é fato: o universo feminino é indecifrável e é constante mutação.Não em ciclos de 28, mas a cada segundo.

Mas o que importa? O pinto quase concebido. Escondido na casca que, por necessidade ou cisma mesmo, insistimos em usar.

Os outros me vêem como guerreira. Eu me vejo como uma mulher de bigodes – encubada, louca para vestir meu Armani e sair por aí. Sem culpa.

Como eu gostaria de ser vista? Como a essência feminina, aquela que sente por simplesmente sentir. Que sabe quando vai chover, que lê a natureza com os olhos do coração. Sabe quando o sol vai se por, sabe pelo olhar da alma o que o outro e, principalmente, ela mesma precisa.

Uma conectada, quase um animal.

Sensível. Absoluta. Linda por existir. Sem grilos, sem cuca entupida. Focada no agora, construindo o hoje e se o futuro for bom, que o seja por merecimento.

No fight.


E você? Como é a sua tríplice?
Nos diga. Estamos curiosas.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

2020: 5.45 em cápsulas


Esse post inaugura uma série de objetos de desejo que a gente espera (e acha que é perfeitamente possível) ver na próxima década.

Coloração em cápsulas. Não deve ser difícil desenvolver uma tinta que pinte os cabelos por dentro, antes que a raiz (branca, desgraçada) rompa pra fora da cabeça.

Um item necessário até mesmo pra quem não sofre ainda de grisalhice. Convenhamos que aquela raiz preta contrastando com o louro, o cobre ou o acaju é completamente desnecessária.

Um futuro prático e simples. Porque eu mereço. E você também.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Rapidinha


Mantra da balzaca: ~ Quem dá aos pobres, paga o motel ~
Repita 10X sempre que cair em tentação.
Ommmmmmm

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Perfazer


Vejo aquela garrafa vazia

Cada rolha de vinho

Um sabor, várias descobertas.

Noite fria

Dois copos

Dois corpos,quentes.

Completando,

De gole em gole

O vazio que existia em mim.

domingo, 9 de maio de 2010

Janelas, panelas e quintais


Sexta-feira, 20h30, escritório. No monitor, 12 janelas abertas no firefox, cinco no i.e., duas no chrome. Na mesma sala, três mães, cada qual administrando suas janelas profissionais e pessoais.

Na ida e volta para o banheiro - tempo que você se dá para priorizar quais tarefas, demandas e emails não respondidos ficarão cozinhando até segunda -, lembrei que era final de semana das Mães.

Quer saber? Queria bem ganhar uma panela!

Desde que me entendo por gente, escuto minha mãe falando que, se a gente (eu e meus irmãos) um dia desse uma panela ou qualquer utensílio doméstico de presente, ela atiraria o objeto nas nossas cabeças. 'Presente de casa é para a casa, eu quero é um presente pra mim', dizia ela.

E assim cresci com a convicção de que me tornaria independente, trabalhadora, solteira. Sem panelas. Só janelas.


Quis o destino (destino?), que eu me apaixonasse, engravidasse, casasse, procriasse 2 vezes, e mais tarde me separasse. Hoje tô aqui solteira de novo. Na cozinha, muitas panelas velhas.

E se eu amanhã fosse ganhar uma panela nova, provavelmente não estaria aqui com uma das janelas no streaming do TEDXSudeste; outra nos posts, comentários e emails do grupo do Nepô; outra na last.fm, para pensar no repertório da Tribo do Tambor; outra na Escola 24 horas, para ver as tarefas que o Pedro não fez; outra no Facebook, interagindo com os pensamentos dos amigos; outra no twitter, acompanhando a hashtag que tem a ver com o trabalho...

Vai ver eu estaria vendo a novela das 6. Ou preparando o jantar para as crianças (quem sabe até para o marido também?), com a mão cheirando a alho e os olhos ardendo à cebola.

Talvez seja essa a mãe que meus fihos gostariam de ver na sala ou na cozinha mais vezes. Não quis o destino (?) deles que fosse assim.


Essa que agora está aqui no quarto, blogando na madrugada de um sábado à noite, quer crescer profissionalmente, quer reconstruir sua vida como mulher, quer continuar estudando, quer viajar o mundo, quer transformar o mundo.

Mas também quer mais tempo para ver seus filhos crescerem, seguindo o destino (?) que a vida lhes reservar. Quer brincar de casinha de vez em quando, quer cuidar das plantas, quer experimentar uma receita numa panela nova...

Quer dizer à sua mãe que só as mães são felizes. Feliz dia, mãe! Feliz dia, mães!

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Estar ou não estar, eis a questão



A vida não é teatro, você não entendeu. Ninguém saiu de cena quando escureceu.

Se era farsa ou comédia o que você ‘viveu’, não foi imaginário o que aconteceu.

Sua máscara caiu. O pano, esmoreceu.

Todo mundo viu. No final, ninguém aplaudiu.


Entre a máscara teatral e a máscara cotidiana há uma diferença sublime. O Grupo Teatral Moitará, coordenado pelos artistas e pesquisadores Venício Fonseca e Érika Rettl, trabalha com o conceito de máscara teatral e explica que, para ela ganhar vida, é necessário que o ator se desfaça de sua máscara cotidiana.

“Diferente da máscara cotidiana que busca ocultar e proteger, a máscara teatral revela a essência da persona representada, imprimindo uma identidade especial e genuína. Ao representar com uma máscara, o ator forçosamente entende como elevar o personagem para uma dimensão teatral, para além do cotidiano, então ele compreende o que é um verdadeiro personagem de teatro, inventado da vida e não um personagem da vida. Assim, quando a Máscara Teatral está viva em cena ela é, em si, o próprio Teatro, pois os princípios básicos que regem sua vida são os alicerces fundamentais da arte teatral. Ela é um arquétipo que propõe ao ator a criação de um estado, com qualidade de energia específica, representando uma natureza que está além do convencional”, afirma Venício.

E aqui vale recorrer à origem da palavra teatro, que deriva do grego theaomai (θεάομαι) - olhar com atenção, perceber, contemplar. Theaomai não significa ver no sentido comum, mas sim ter uma experiência intensa, envolvente, meditativa, inquiridora, a fim de descobrir o significado mais profundo; uma cuidadosa e deliberada visão que interpreta seu objeto (Theological Dictionary of the New Testament vol.5:pg.315,706).

Ver e fazer teatro nos permite assistir melhor à vida, também repleta de ambiguidades e paradoxos. Nos permite significar o drama, ao mesmo tempo em que distinguimos o real do imaginário.

E é por isso que esse blog aceitou, ainda que com atraso, mas com muita honra, o convite para participar da blogagem coletiva da campanha Mais Teatro, Brasil!, cuja missão é a mobilização da sociedade em um manifesto nacional pela inclusão sociocultural, educacional e digital. A meta é colher assinaturas e propor ao Congresso Nacional a validação de um Projeto de Lei de Iniciativa Popular que obrigue a construção de um Centro Integrado de Cultura em cada município com população superior a 25 mil habitantes. Uma iniciativa que possibilitaria a milhares de brasileiros o contato com espetáculos de qualidade e o acesso a espaços destinados à arte – em sua imensa maioria restritos ao eixo Rio - São Paulo –, criando um hábito de consumo de cultura, fundamental para a formação do caráter de um povo.

E aqui voltamos ao 1º ato: Mais caráter, Brasil!

‘Creio que não se pode fazer nada de grande na vida se não se fizer representar o personagem que existe dentro de cada um de nós.’
Charles Chaplin


Ao acessar o www.maisteatrobrasil.org, clique em "Dou a Maior Força", cadastre-se e assine a lista de adesão. Com a sua participação será elaborado um Projeto de Lei de Iniciativa Popular, a ser entregue diretamente ao Congresso Nacional para aprovação. Portanto, vamos gritar para todos: Mais Teatro, Brasil!

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Inacabada


Ela não quer namorar. Ela quer ter tempo para se reorganizar.

Ela quer.

Ela ainda não quer se apaixonar. Ela quer se divertir e viver o “só por hoje”. Melhor ainda, ser plena. Na plenitude do seu quarto, dos seus livros, da profusão de ideias e sentimentos que explodem da sua cabeça. Solitude ao invés de solidão.

Ela quer.

Ela não quer esse ou aquele. Ela quer o desafio conhecido. Terreno seguro. Estória recontada.Mulher caçadora.

Ela quer.

Para o desconhecido... Areia movediça. Beijos recebidos, corpos que se encontram somente por instantes. Encontros marcados, flores e diversão. Torpedos impertinentes, pertinentes, pontuais. Convites, diversidades e medo de conhecer mais gente, de ouvir mais gente, de dar oportunidade ao novo.

Ela deseja.

Mas ainda não quer abrir essas janelas.

Somos confusas, eu sei.

“Algumas vezes eu fiz muito mal para pessoas que me amaram. Não é paranóia não. É verdade. Sou tão talvez neuroticamente individualista que, quando acontece de alguém parecer aos meus olhos uma ameaça a essa individualidade, fico imediatamente cheio de espinhos - e corto relacionamentos com a maior frieza, às vezes firo, sou agressivo e tal. É preciso acabar com esse medo de ser tocado lá no fundo. Ou é preciso que alguém me toque profundamente para acabar com isso.” Caio Fernando Abreu.

domingo, 21 de março de 2010

Nobres e sinceras visitas



Tempo de mudança e reencontro. E nesses momentos, de ciclos que oscilam entre altos e baixos, eles vieram para visitar Sophia. A sua intuição é intrínseca, por vezes foi deixada de lado, mas guia todos seus passos quando humildemente é ouvida.

Noite. Sophia ainda não se acostumou a ouvir somente a sua própria voz. Ouvir e sentir seu silêncio. Tomar café, sair, pensar e debater com ela mesma. Nesse dia, precisamente às 23 horas uma grande libélula entra e fica na sua casa.

Quieta. Imóvel. Por instantes.

De súbito, ela voa. Visita toda a casa. Bate no teto, pousa na estante e seus olhos acompanham e a sua mente pergunta: o que fazer? Servir um café?

Carinhosamente ela pega a libélula e conduz para a única janela que não possui telas de proteção. Telas que podem ser interpretadas como muros, para indesejáveis sentimentos, pensamentos, situações.

Dia seguinte. Noite, novamente. Exatamente às 23 horas um beija-flor filhote entra na casa. Todo preto, com o peito verde. Um verde indescritível, quase cintilante.

Visivelmente doente, ele lutou e se debateu no varal e na lâmpada,por fim, no chão. Era impossível um contato físico entre Sophia e esse mensageiro. A intuição veio à tona e ela respeitou a angústia do bichinho em encontrar um lugar em que realmente pudesse descansar.

Naquela noite. Só essa noite.Descansa beija-flor, aqui você está seguro.

E como toda visita deve ser bem tratada, Sophia coloca em um cálice de cristal, muito especial [ele foi oferecido como presente e símbolo de perpetuidade de gerações por um senhor amigo] um pouco de açúcar e água fresca.

O beija-flor não quis se alimentar sozinho. Quando, vencido pelo cansaço finalmente pousou perto do cálice, Sophia pediu permissão e pegou o bichinho pelas mãos e foi dando pequenos goles de água. A conexão foi feita. A comunicação também. Ela abre as mãos e o visitante parte satisfeito para um próximo voo.

Fortalecido. Feliz. Livre.

É preciso ouvir com a voz do coração. É preciso entender o que não é dito.É preciso do silêncio para poder falar com precisão e mudar radicalmente a percepção da realidade.

N.B.: No Xamanismo, a Libélula representa a necessidade de reavaliar padrões de comportamento que devem ser quebrados. A energia da Libélula relaciona-se com os sonhos e as ilusões que aceitamos como sendo realidade concreta e expressa a essência dos tempos de mudança, das mensagens de iluminação e sabedoria, e a comunicação com o mundo dos elementais.

Sophia recebeu a mensagem que deve usar a energia desse visitante para escapar dos caminhos enganosos e enveredar pela senda da transformação.

Por sua vez, o seu segundo visitante inesperado – o beija-flor – representa a volta da felicidade perdida. Sua mensagem é a de que, sem um coração aberto e amoroso, ela jamais poderá degustar o néctar da vida.

Assim como seu amiguinho, Sophia tem sede e vem sido sendo alimentada aos poucos para traçar voos, porém de forma precisa. O beija-flor é o único pássaro que pode voar em todas as direções — para cima, para baixo, para os lados e para trás —, conseguindo ainda manter-se imóvel num único ponto, como se estivesse paralisado em pleno voo.

Voa mulher, voa.
Sophia e seu visitante amam a vida e suas alegrias e possuem a rara capacidade de reunir as pessoas em relacionamentos que extraem de cada um o melhor que eles têm a oferecer, repudiando a feiúra, a discórdia e a desarmonia, e voando rapidamente para longe de tudo isto.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Entre o público e a privada

Puxa a descarga.Deixa ir embora de vez o que de ruim estava dentro de você.Seu corpo – magnífica e inexplicável máquina – aproveita o que tem de bom, recicla e transforma.


Parafraseando Nelson Rodrigues: “Convém não facilitar com os bons, convém não provocar os puros. Há no ser humano, e ainda nos melhores, uma série de ferocidades adormecidas. O importante é não acordá-las.”


Talvez não esteja sendo clara ao escrever estas poucas palavras, mas ainda existe gente que se assusta com atitudes sem escrúpulos, indignas. Ops...sou uma delas.

Mas tudo isso sempre existiu, sempre existirá.

Faz parte de um todo que se chama gente.Cabe a cada “gente” ser gente de verdade.A diferença entre o ontem e o hoje é que tudo está exposto e, se para alguns assim o está, é porque os limites acabaram e tudo, praticamente, passa a ser aceitável.

Afinal a individualidade nunca esteve tão em alta.

Sophia pede desculpas por escrever de forma tão amarga e tão oculta.

É que Sophia precisava desentupir e puxar a descarga, entende?

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Send Amor



Saudades de receber carta escrita, fita gravada com direito a chamada da rádio. Saudosismo analógico de receber bilhetes anônimos na sala de aula, presentes de um e noventa e nove e telefonemas que terminam com o silêncio cheio após o “Alô”.

Por isso e por tantas outras coisas que Sophia se surpreendeu em receber na mesa de um bar – não poderia ser diferente – um manuscrito em letra de forma, no verso de um papel já aproveitado, uma carta de amor.

Indireta. Confusa. Sincera. Humana. Escrita.

Cheia de um tudo que faz parte do todo de nós.

“Porque por mais que seja internamente repetitivo, e pode-se explicar, talvez, pelo fato de não ter sido internamente discutido a importância de se expressar sobre isso.

Porque ela me faz bem e é isso que importa: a leveza da relação, o bem-estar pessoal, a sensação de calmaria que se tem quando se para e pensa que existe alguém por quem nutrimos sentimentos não forçados.

Porque nessa porra dessa gangorra que é a vida, onde, assim como os carros, as pessoas chegam e vão embora, cada um carrega nas costas o peso da missão atribuída; vemos os transeuntes perdidos com olhares vazios ocos, sem brilho. Dependendo da criatura é importante uma segurança e paz afetiva.

Porque me recuso a acreditar em perfeição. E, diante dessa prerrogativa e levando-se em conta o oposto do que consideramos perfeito, só o fato de não trazer consigo pequenos delitos impróprios para a paz interior já é uma porra de medalha que temos que carregar de forma orgulhosa no peito.

Porque o entendimento de um simples olhar, as coisas claras na troca de exclamações e somando tudo isso a uma série de outros fatores, deixa mais cristalino bem-estar do responsável e supervisão full time pela ausência de lágrimas e similares que é a porra do coração, este órgão primitivo; refém das armadilhas da mente.”

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Tudo que transborda, preenche.




Quem acompanha nossas histórias sabe que escrevemos com o coração. Sem pretensões nem futuros desejos, o ‘Desbancando’ é a esponja que seca e alivia o nó que às vezes não sai da garganta.

Quem busca entender, esqueça. Não há nada linear na montanha russa de sentimentos de Bia e Sophia.

Lembranças.

Julho de 2009 – Livraria da Travessa.
Entre uma reunião e outra, pego um táxi [quase no escambo] e um livro me encontra. Um presente para um passado que continuava.
O presente pro meu caos que eu queria de volta.

Setembro - Sebo Baratos da Ribeiro.
Noite. Reencontro. Re-começo.
Duas mãos entram juntas e se dispersam em meio a livros, discos, fotos. Tem cheiro de história naquele lugar. E dentro dele, outro livro me encontra.
Quando folheio, levo. Quando leio, choro.

E não digo mais nada. Apenas sinto.
E por isso compartilho aqui o texto de Paula Gicovate que por si só já conta minha história. Ou parte dela sobre (o) tudo que transborda.

“Não diz nada, você não diz nada. Apenas olha para mim, sorri. Quanto tempo dura?” Caio F.

Só hoje, durante a tarde que chove, pensei em te comprar um livro e te escrever um conto. Já sabia a dedicatória e como eu começaria a escrever o conto. As frases de Caio entrariam nas duas, e o livro, seria dele.

Só hoje, durante essa tarde onde só chove, pensei em terminar tudo duas vezes. Pensei no não palpável, no meio, na minha falta de perspectiva e esqueci de tudo quando lembrei de algum momento sublime e besta onde o medo me evapora. Eu sou uma idiota. Só hoje, pensei em me jogar na chuva e lavar o drama que me escorre. Me sinto uma idiota. Parei de teorizar o amor e a prática me enlouquece, escrevo textos de cinco páginas e me envergonho de cada linha. Me acho fraca, e não sei lidar com isso. Hoje já pensei em cinco formas diferentes de te expulsar de mim e quis gritar quando percebi que “amor tranqüilo” nessa minha vida é infindável, e aceitei o caos com que eu vivo meus dias.

Ontem eu estava lá e imaginei como seria. Você misturado nos meus amigos e nossos cigarros e problemas de gente atrapalhada e ainda não totalmente vivida que se abraça e se conforta e que como gato esfrega um o rosto no outro como se assim as coisas se resolvessem. Mas você não estava e me incomoda essa linha imaginária que divide tudo. Pensei em te deixar de novo, e depois, quando os outros foram embora e roçavam a barba no meu pescoço com um jeito meio cafa de se despedir para ver se provocavam em mim algum tipo de reação, eu quis voltar ao caos emocional dos “quatro cantos do seu quarto.”

Hoje nessa tarde chuvosa que ainda pinga da madrugada chuvosa de ontem também eu parei pra pensar no meu mundo que você não vê e pensei em cada um que um dia levou pra casa o pacote completo. A falta de ar, a rouquidão, a doença que não passa, a insegurança inevitável, o meio de tudo, a sensação do meio que me emudece desde o início, tudo me faz pensar em cinco formas diferentes de te deixar.

E tudo o que eu consigo fazer é entrar na livraria e vencida pelo cansaço te comprar um livro que verbalize toda a angústia de gostar mais de você do que qualquer outra pessoa.
E todo o caos a que você me expõe desaparece de dentro de mim quando a única coisa que eu consigo sentir é o que não é palpável. Isso de me sentir viva simplesmente por não saber mais como voltar para o que era calmo.

Você é puro caos. E eu também.
E se chamam isso de sadismo baby... Eu chamo de amor.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Sexo e Fluxo



Energia vital, chackras, boas vibrações.
Tempo, clima, ar.
Trânsito [tráfego ou solar].
Bolsa de valores, investimentos, grana.
Taxa de material, utilitários quebrados.Aquela infiltração que cisma em aparecer.

Tudo deve e pode ser motivo para justificar nossos humores, relações, decisões.

Sophia encontrou uma amiga que está se reconstruindo.

Helena (só podia ser Manoel Carlos mesmo) está, digamos, repensando a vida.

- E aí amiga? Como estão indo as coisas? Novidades?
- Ah, Sophia... Decidi que a partir de agora só sigo meu fluxo.

Legal esse negócio de fluxo. Pode até ser de 28, 30 dias. Pode ser de acordo com a lua. Pode ser qualquer coisa!

- Helena, me explica. Que classificação você dá para “seguir seu fluxo”? Veja bem pra onde isso vai te levar. Isso é coisa da sua cabeça.

- CABEÇA! Isso. Falou tudo.

Fiquei desprevenida com a emoção atribuída à palavra dita, mas mexi a minha cabeça com aquela cara de bons amigos e de conteúdo [parafraseando Tom Zé: tô te explicando pra te confundir]. E concluí... É, a gente é o que a gente pensa. Mais ou menos assim que funciona, né?

- Não, Sophia. Você não entendeu nada [Nesse minuto minha cabeça real fervia. Meus neurônios idem. Quero uma cerveja, pensei]. A coisa é muito mais profunda. A partir de hoje, da zero hora de hoje, decidi que meus relacionamentos vão começar no fluxo certo. Antes era assim ó:

Boceta – coração – mente

Entende?

Só me restou dizer, prossiga.

Helena atendeu ao meu pedido e com emoção continuou: o fluxo boceta-coração-mente é sinônimo de boceta-coração-fudeu. Isso é contra fluxo energético. Raciocina: a energia não vai de baixo para cima. É de cima para baixo.

(risos eternos)

E começou a apontar para a sua própria cabeça – aliás, e a propósito - e para seus chackras com o indicador. "A única forma de mantermos relações duradouras em um período sorumbático é seguir o fluxo energético.
Cabeça-coração-boceta. Assim a gente tem mais garantia de ser feliz."

Não me contive e precisava de uma resposta mais prática com relação a essa narrativa tão pessoal e iluminada.

- Helena, posso te perguntar uma coisa?
- Fala.
- Você tem dado? Assim, trepado, transado, feito amor... Sei lá.
- Não.
- Ah, então ok. Tá explicado. Só me resta dizer, fudeu.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Independência e sorte



Um dia você olha bem pra sua vida e percebe que aquilo que você conhecia por vida a dois chegou ao fim. Acabou, cansou, foi bom enquanto durou, mas não dá.

De repente é até... bom ainda. Mas nada muito mais que ‘bom’.

- Eu gosto dele, mas ele hoje é muito mais meu amigo do que meu homem.

- A gente se dá muito bem, mas falta alguma coisa.

- Eu o admiro, respeito, mas... falta tesão.

- Ele é um ótimo pai, excelente companheiro, mas falta química na relação.

- A gente se dá bem na cama, se dá bem como amigos, mas ele não quer nada da vida.

- Eu sei que ele gosta de mim, eu gosto dele... mas ele é um galinha.

- Eu quero estudar, viajar, quero mais pra mim do que ficar sentada esperando o domingo passar.

- ...

Seja qual for o motivo (e a gente poderia continuar essa lista por mais posts e posts), chega uma hora em que o peso dessa relação é simplesmente insustentável pra quem fica. Mas daí a sair da percepção do ‘acabou’ pra certeza do ‘não dá mais’, a gente sabe muito bem que não é fácil.

Não é fácil bancar a decisão da separação perante pais, filhos e amigos do feliz casal. Não é fácil se explicar pros seus filhos, que talvez por um bom tempo vão te acusar de ser a ‘bruxa má’ da história, que você ainda é jovem, bonita, tem uma vida inteira pela frente e o direito de tentar ser feliz de novo.

Não é nem um pouco fácil se re-apropriar da sua casa, e de um dia pro outro ter que consertar a torneira da pia, trocar a lâmpada da cozinha, ou fazer as compras de mês.

Não é nada, nada fácil rearrumar o armário que agora está vazio, e comporta todas as suas roupas, bolsas, sapatos (ai, como ele reclamava do sua fixação em sapatos) e bugigangas.

Não é fácil olhar pra sua cama de casal sábado à noite, enquanto as crianças dormem na sala e você zappeia e tenta a sorte na tevê.

Não é fácil administrar sozinha toda uma agenda de consultas, terapias, pagamentos e afins.

E também não é nem um pouco fácil assumir que você está, sim, sozinha, mas muito melhor assim. Sem peso, sem cobrança, sem maiores explicações. Sem hora pra acordar no feriado de independência, fazer café, voltar pra cama, escrever um pouco ou ler um livro. Botar um creme no cabelo, uma touca plástica, cortar a unha do pé. Ouvir uma música bem brega, ler o jornal que ontem você não leu (e que ainda está com o caderno de esportes intacto!) ou pensar sobre a crônica de domingo da Martha Medeiros que você não esqueceu.

‘Fico imaginando as histórias que podem não ter acontecido com você. Namorar uma pessoa por oito anos e romper dias antes de subir ao altar: não ter casado pode ter sido a melhor coisa que nunca lhe aconteceu, vá saber o que o destino lhe ofereceu em troca. Ou você não ter passado num concurso. Nunca ter recebido a ligação que tanto esperava. Nunca ter recuperado um objeto perdido que o deixava preso a lembranças paralisantes. ...

É uma visão generosa da vida: imaginar que os não-acontecimentos fizeram diferença, que você está onde está não só por causa das escolhas que fez, mas também pelas especulações que nunca se confirmaram. Ao manter esse caráter desestressado, eliminamos a palavra derrota do nosso vocabulário e a alma fica mais aliviada, o que não é pouca coisa nesse mundo em que tanta gente parece pesar toneladas devido ao mau-humor e ao pessimismo.’

Continuar casada pode ter sido a melhor coisa que não me aconteceu. Ainda que não seja fácil, ainda que por muitas vezes eu pense ‘E se não tivesse sido assim?’.

Pensar que a gente nunca vai saber como teria sido se tivesse sido diferente é libertador. E como bem disse a Martha, ‘ter o espírito aberto funciona’.

Boa sorte.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Vai passar.

Sophia não tem passado muito por aqui… Não tem passado muito bem.

Pra falar a verdade, o passado tem incomodado bastante. Quando pouco madura, as dores e perdas eram como machucados de criança: superficiais, fruto de estripulias saudáveis e curadas com band-aids de personagens de contos de fadas. Nada que causasse uma lembrança presente.

Tudo vinha e passava...

Presente.

Nada divertido para compartilhar. Menos Polyana mais Nelson Rodrigues.
Momentos de introspecção, de solidão. Análise.

Lá de dentro do ventre ela tira luz para conseguir cumprir a etapa mais difícil.
Ao invés de olhar-se no espelho como faz todas as manhãs, ela vê. E mesmo não gostando muito, encara a cara da alma e enfim decide destruir para reconstruir.

É... Algumas escolhas precisam ser feitas para viver intensamente o momento.

Ao longe três passarinhos cantando: “You’re gonna find yourself somewhere, somehow”.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

A fuga da Terra do Sempre



Que coisa, nosso último post nada tinha a ver com a NeverLand que ficou, desde a última quinta-feira, definitivamente conhecida como o reino projetado e pometido por MJ (que Deus o tenha).

[Naquela mesma quinta, 25 de junho, morria também, de câncer e ofuscada pela morte de Michael, a atriz Farrah Fawcett. Intérprete dA Pantera Jill, que marcou toda uma geração de hoje balzacas, que, além de Jills, queriam 'ser' Kellys e Sabrinas.

Mas, voltando à Terra do Nunca, o resgate das Wendys e Sininhos, que coabitam em toda mulher, deu lugar a uma tentativa de fuga da Terra do Sempre – fuga breve, quase fugaz, mas uma fuga, ainda que apenas por alguns dias.

Sempre atrasada. Sempre estressada. Sempre ocupada. Sempre pronta pra tomar alguma decisão. Sempre armada, sempre apressada, sempre cobrada - principalmente por si.

Microférias, diante desse quadro, acabam por dar uma pausa no 'sempre'. Um raro instante pra refletir no que temos feito com o nosso Tempo e Espaço - de mãe, de filha e irmã, de profissional, de amiga, de mulher...

Mas acabam. Amanhã a tal 'vida normal' continua. E entre o Sempre e o Nunca, a única certeza pela frente é de um Talvez.

Bora lá.

domingo, 7 de junho de 2009

A volta da Terra do Nunca


Acordei.

Entre um fechar e abrir de olhos finalmente descobri por que Peter e a sua legião dos meninos perdidos sempre me fascinaram. Descobrir não é necessariamente entender. Descobrir é mágico, entender é transformação.

Em transformação...

Na ausência de Peter, um menino perdido também valia. Mas Peter é o líder, com ele é mais fascinante. Junto dele... Liberdade. Peter mostra mundos distantes, aventuras nunca antes vividas, falta de compromisso, “Panis et circenses”.

E chega o dia que se quer mais do Peter. O que mais divertia agora mais angustia. E você aposta, mostra, conduz e - o pior - se sente forte e indispensável. Afinal, quem sabe das melhores escolhas? Você. Uma visão [distorcida] de força.

Todo Peter tem sua Wendy e sua Sininho. Com a primeira o amor é incondicional, quase materno. Com a segunda é impossível. Sininho é tão pequena... E some, e retorna e some de novo até nunca mais voltar.

Essa é a transformação. Fui e sou uma Wendy. Admito. Daquelas que abdicam e permanecem, esperando o dia em que seu Peter vai finalmente crescer, sem abandonar o que foi o estopim de um grande amor... A leveza, a brincadeira. E, aí sim, participar da mudança do menino em Rei, de braços abertos para levar a cansada Wendy em uma linda carruagem.

Cansada.

Na verdade Wendy e Sininho são dois lados de uma mesma mulher. A Sininho, antes Wendy, pode esperar por uma carruagem mágica, mas chega a hora que ela quer, assim como Peter, voar. As Sininhos também ficam e até acreditam na pseudomudança.

Fantásticas essas mulheres, detentoras do maravilhoso pó mágico que Peter usa para poder escapar e voltar para a Terra do Nunca.

Sininho quer espontaneidade, crescimento e adaptação mútua no relacionamento com um homem. E, mesmo atraída pelo descompromisso, ela rompe e busca novos voos sem entender muito bem porque aquele amor azedou e voa em busca da próxima aventura.

Uma vez tomada a decisão, a Sininho nunca volta.

Hoje, aprendo a voar.

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Há 15 anos


Esse post está em construção. E em contração.

Há 15 anos, com pouco mais de 15 anos eu também, experimentava as dúvidas, angústias, sonhos e anseios vivos na barriga ainda prenha - 8 meses redondos de pura expectativa.

No céu, a lua eclipsada irradiava um lume contido, de quem espera a melhor hora pra brihar.

Ela não esperou. Ou melhor, ela sabia, já era hora de estrear.

A essa hora (a primeira meia-hora deste dia 25), preparava-me para dormir aquela que seria a última noite como apenas mulher. Em poucas horas, quando a lua enfim se despedisse do horizonte para o soberano astro reinar, eu me veria então como mãe, com todas as dúvidas, angústias, sonhos e anseios vivos naquele pequeno ser que acaba de chegar.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Prenez Soin de Vous. (Cuide-se.)


Já falamos aqui sobre o que parece ser cada vez mais um sinal (ocupado) dos tempos. D.R. por e-mail, bate-boca por msn, ponto final via sms...

Covardia? Falta de respeito pelo que se viveu? Sem respostas, um dos maiores nomes da cena artística contemporânea, a francesa Sophie Calle recorreu a outras mais de cem mulheres – entre atrizes, cantoras, bailarinas, tarólogas, DJs, palhaças, advogadas e até sua mãe – para interpretarem, por ela, o grand finale.

‘Só chamei mulheres porque acho que essa carta não poderia ter sido mandada de um homem gay para outro, ou de uma lésbica para outra. É uma típica carta enviada de um homem para uma mulher’, explica Sophie.

O convite resultou na exposição que provocou polêmica na 52ª Bienal de Veneza, passou por Paris, Tóquio, Hong Kong, Munique e Nova York. E chega em julho ao Brasil, no SESC Pompéia, São Paulo, seguindo em setembro para o Museu de Arte Moderna da Bahia, em Salvador.

Mas o melhor da história mesmo é que Sophie também vem para a Flip, onde dividirá a mesa ‘Entre Quatro Paredes’ com ninguém menos que o ex, o escritor francês Grégoire Bouillier. Será o primeiro encontro público dos dois.

...

‘Recebi uma carta de rompimento.
E não soube respondê-la.
Era como se ela não me fosse destinada.
Ela terminava com as seguintes palavras: Cuide de você.
Levei essa recomendação ao pé da letra.
Pedi a 107 mulheres, escolhidas de acordo com a profissão,
para interpretar a carta do ponto de vista profissional.
Analisá-la, comentá-la, dançá-la, cantá-la.
Esgotá-la. Entendê-la em meu lugar.
Responder por mim.
Uma maneira de ganhar tempo antes de romper.
Uma maneira de me cuidar.’
Sophie Calle


N.B.: Alguns registros da obra de Sophie:

Cuide de Você, de Sophie Calle, a São Paulo e Salvador

Sophie Calle ou surpresa das surpresas

Sophie Calle na Bienal de Veneza